24 de mar de 2013

Texto, leitura e sentidos: uma perspectiva discursiva


A Análise de Discurso de Linha Francesa (AD), é uma corrente de estudos da linguagem que tem como objeto de estudo o discurso, isto é, os “efeitos de sentido” materializados em textos diversos. Desse modo, o analista do discurso se debruça sobre os textos para perceber o modo como esses se inserem dentro da atividade discursiva, para compreendê-los e não apenas interpretá-los. Na AD, o texto é visto como a materialização do discurso e como um elemento que se apresenta tal qual uma peça dentro do conjunto de enunciados que constituem a atividade discursiva. É uma peça que permite o jogo da interpretação, o deslizamento dos sentidos; portanto, sob o viés da Análise de Discurso, não há sentidos fixos que devem ser extraídos dos textos no momento da leitura. Se o discurso é efeito de sentidos, esses últimos são construídos a partir da atividade do sujeito leitor, que é sempre histórico e marcado pela ideologia.
Nesse sentido, um texto, apesar de se apresentar com início, meio e fim, não é uma unidade fechada em si mesma. Ao contrário, quando se vê o texto em relação ao discurso, percebe-se sua imensa carga simbólica, sua multiplicidade de sentidos. A esse respeito, Eni Orlandi, no livro intitulado Discurso e Texto, afirma: “(...) se vemos no texto a contrapartida do discurso – efeito de sentidos entre locutores– o texto não mais será uma unidade fechada nela mesma. Ele vai se abrir, enquanto objeto simbólico, para as diferentes possibilidades de leituras (...)”.
Como faz parte de uma cadeia, o texto é inevitavelmente construído a partir de outros textos, num diálogo com outras vozes e, justamente por isso, que não pode ser observado de forma isolada, sendo, portanto, heterogêneo.
Como um elemento de materialização do discurso, o texto nunca será interpretado do mesmo modo por sujeitos diferentes, sendo, portanto, importante levar em conta a diversidade dos leitores, as marcas ideológicas que envolvem a produção da leitura. Um leitor que é cristão lerá a bíblia de modo diverso de um ateu, por exemplo, e essa diferença de leitura mostra que o texto não tem sentido único. Assim, não se pode entender o texto como um produto pronto e acabado, como um elemento completo e fechado em si próprio. Sobre essa questão, já afirmava Michel Pêcheux no livroSemântica e Discurso que “todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente para derivar para um outro”. O ponto de partida da concepção de texto na Análise de Discurso, é, portanto, o de que o texto sempre comporta outros sentidos, outras significações.

Nenhum comentário:

Postar um comentário